quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Poesia Alcoólica

Ah, quanta saudade eu sinto
Tão doce quanto um bom absinto
Lembrando do momento em comum
Degustado com uma garrafa de rum
Seu nome ainda ouço em som
Indivisível como uma garrafa de bourbon
Mas um momento tão precioso assim
Não é comparado nem com um copo de gim


Anderson Marques Mileib

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Quando Deus criou o homem, na verdade ele já pensava em sua aposentadoria. Sabia que com o livre-arbítrio o homem cedo ou tarde causaria sua própria ruina, poupando-lhe grande esforço.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Hoje uma homenagem

Manuel Antônio Álvares de Azevedo... Pra mim ele foi O mal do século. Quem me conhece sabe o quanto sou fã dele. Aqui vai um de meus favoritos.

Lembrança de Morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

E esse sonho que não para de sonhar
E essa vida que não para de andar
E todas as rimas que não podem faltar
Será que um dia isso vai acabar?


Anderson Marques Mileib

domingo, 10 de janeiro de 2010

A Fúria

Meu coração agora só diz seu nome
E arde nas eternas chamas reluzentes.
E reluz a cada letra contundente
Gritando seu nome em paixão ardente.
Completamente em chamas,
Inflama!
Como aos olhos que a lágrima derrama,
Branda o sangue que ao chão reclama
Banhando em vermelho, fúria inigualável
Como o sangue como o céu inimaginável
Como um toque no cabelo inalcançável.
Um ardil grito na insípida solidão
Modelando a si, grandiosa paixão.


Anderson Marques Mileib

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um pequeno conto

Jeremy subia as escadas do hotel na pequena cidade vagarosamente enquanto olha em seu relógio: 3:15 da manhã. Com seus calmos passos ele se lembrava da conversa que teve com Kate no bar do hotel, se lembrava de seu lindo rosto, seus lábios vermelhos e seus cabelos negros como a noite, lembrava-se de como via suas mãos alvas tocando a taça enquanto conversavam, da forma como ela olha em seus olhos enquanto ele falava, parecia que ela via dentro de seu corpo, parecia ver sua alma.
Ainda podia sentir o gosto do vinho barato servido no bar do hotel, havia ficado cerca de uma hora depois que Kate subiu para seu quarto, tempo de sobra para alguns copos e um cigarro. Jeremy passava pelos quartos enquanto se lembrava de sua noite, tirou um papel do bolso com o número de um quarto rabiscado em um guardanapo para não se esquecer, 102. Lá estava ele, tocou na maçaneta, estava aberta. Jeremy entrou e viu o quarto envolto pela penumbra, apesar de seus olhos já estarem acostumados com a escuridão o quarto não estava totalmente escuro, havia uma fresta de luz da lua cheia que entrava pela janela entreaberta, Jeremy fez questão de verificar a janela, abriu-a e olhou para cima, escada de incêndio, em baixo uma lixeira grande, bem típico, pensou com ironia.
Jeremy parou ao lado da cama e viu que Kate acordou quando ele entrou no quarto, não fez questão de ser furtivo. Ela o olhava, parecia ter um pouco de incerteza de quem estava ali, suas vistas ainda rodavam por causa da bebida.
-Jeremy, é você? Veio me fazer companhia esta noite?
Jeremy sentou-se na cama, tocou no rosto alvo de Kate, suas mãos deslizavam de sua face para seus cabelos, até seu pescoço, e então a beijou. Enquanto a beijava tinha a impressão de ver um mundo de cores se misturando quando fechava os olhos, foi aí que Jeremy ouviu uma voz, não era dentro de sua cabeça, era em seu ouvido, como se estivesse do seu lado “ela sabe, ela sabe seu segredo”. Jeremy ficou inquieto, por alguns instantes parou de beijar Kate, olhou em seus olhos, ela retribuiu o olhar e se beijaram novamente. “Será que não viu como ela olhou em seus olhos? Olhou no bar e também olhou agora, ela sabe seu segredo, mate-a”. Jeremy ficou confuso, começou a beijar Kate com mais força, suas mãos tocaram seu pescoço novamente, pode ouvir um gemido ao tocá-la. “Mate-a agora ou ela irá contar!” A voz agora estava agressiva e apesar de não saber ao certo de onde vinha e de quem era Jeremy sabia que era verdade, devia fazer algo antes que Kate escutasse a voz.
Suas mãos começaram a apertar seu pescoço com mais força, Kate começara a gemer e a tentar gritar, porém não conseguia, sentia-se fraca, sua cabeça ficava mais leve aos poucos e sua vista começou a escurecer, porém não desistiu de lutar. Quase em seu último esforço, Kate conseguiu chutar Jeremy e afastá-lo, porém estava sem forças e Jeremy já se recompunha e caminhava em sua direção. Kate olhou para o lado e viu um copo e sem pensar pegou-o e atirou na cabeça de Jeremy, o copo se quebrou em dezenas de pedaços fazendo Jeremy gritar e recuar um passo, porém ele não desistiria.
Jeremy ouvira novamente a voz dizendo “pegue a garrafa de vinho antes que ela a veja” e quase que instantaneamente os dois olharam para a garrafa, Kate estava mais próxima e foi mais rápida para pegar a garrafa, porém Jeremy estava preparado e segurou seu braço quando ela tentou atacá-lo e com a outra mão bateu em seu rosto, com isto a garrafa caiu na cama e ele a pegou. Kate tentou atacá-lo novamente, mas ele era mais forte, segurou suas mãos com uma mão, deixando sua cabeça desprotegida, a última coisa que Kate pode fazer foi virar a cabeça, tentando desviar inutilmente do golpe com a garrafa.
Ao bate na cabeça de Kate a garrafa fez um som oco que ecoou no quarto escuro, a garota desmaiara com o ferimento na cabeça, porém a garrafa não se quebrou. Jeremy bateu novamente, desta vez com calma e usou toda sua força fazendo a garrafa estilhaçar em sua cabeça misturando o vinho com sangue no lençol branco e barato da cama do hotel. Jeremy ainda quis se certificar de que ela estava morta e perfurou sua garganta com o gargalo da garrafa e ao terminar ouviu alguém batendo na porta, um dos empregados do hotel que ouvira a confusão talvez, Jeremy não poderia ter o luxo de saber e rapidamente correu para a janela e desceu a escada de incêndio.
Jeremy correu por algumas quadras até ter certeza de que ninguém o viu. A madrugada estava fria, ainda faltava cerca de uma hora para o sol nascer. Enquanto caminhava se sentia um pouco fraco, quando encostou em sua cabeça viu que estava sangrando. O copo que Kate lhe acertara deixou uma feria e provavelmente deixaria uma cicatriz. Decidiu ir até o hospital cuidar do ferimento, caso alguém perguntasse diria que foi numa briga de bar que eles acreditariam, sempre acreditam. Ao chegar no hospital, uma bela enfermeira que estava no plantão o atendeu, ela era morena e tinha os olhos verdes, ele aproximou-se e disse cordialmente:
-Olá, meu nome é Jeremy...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O último do ano

Tudo que ele queria era esquecer. Esquecer e ser esquecido, mas não se esquecer de todos e por todos ser esquecido, pois ele também queria lembrar e ser lembrado, porém ele não conseguia. Seus sonhos realizavam-se turvos e nada parecia deixar de ser medíocre, tanto que sob seus olhos até as mais belas cores tornavam-se insípidas e ele sempre perguntava, por quê? Fez viagens errantes por sobre a terra e quando não havia mais lugares para viajar, invadiu o confuso e enigmático mundo dos sonhos e lá tanto tempo ficou que por fim falava a linguagem dos sonhos e aos poucos as pessoas iam distanciando-se por não entenderem as metáforas. Por fim ficou só, fora esquecido, mas não esqueceu, então decidiu fazer-se para esquecer foi aí que percebeu que nada podia fazer. A tragédia escorria em suas mãos, passava por entre seus dedos e caía como o sangue que saí de uma ferida e toca ao chão anunciando a iminência de uma tragédia, nada pode ser feito. Então, ao perceber que tudo que ele tocava morria, resolveu tocar seu próprio rosto.


Anderson Marques Mileib

sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu que não amo

Eu não amo você.
Sem você não sei viver
Mas é claro, nem vou dizer.
Afinal eu tenho meu orgulho
E não vou torná-lo um entulho.
Mas pra quê dizer?
Fico aqui no meu canto,
Te amando loucamente
Em meu silêncio ardente.
Mas eu sei que você sabe...
Que eu te amo e não vou dizer.

Anderson Marques Mileib

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Asas

Bradam as asas do desejo.
Intenso, extensivo, lascivo.
Na ternura de seu beijo
Em seu lábio decisivo.

Escárnios afugentados
Pelos olhos libidinais.
Cobertos à dourados
Das virgens e das vestais.

Tal beleza, ludibriante.
Palavras tornadas vazias
De todas as almas vadias

Não exprimem significado
Nem o significante, errante
Torna-se um amor de estante.

Anderson Marques Mileib

domingo, 13 de dezembro de 2009

Milady

Milady...
O que houve com seus olhos?
Neles sempre via o horizonte refletido
Agora não vejo mais cores
Tudo lentamente está sumindo
Nosso horizonte parece estar se partindo

Caminhávamos pelo esplendor d’alvorada
Compartilhávamos idéias e sonhos
Era como se fossemos um

Milady, por que não pega mais em minha mão?
Às vezes me sinto como se não existisse
Por que não toca mais meu coração?
Sinto falta de sua atenção...

Oh, milady, a neve parece estar mais fria
Nela as dores se acentuam
Você não pode ver? Que cada segundo é um dia
Se não posso estar com você?

Milady, você pode me ouvir cantando?
Você pode me ouvir gritando?
Não me deixe sozinho aqui
Neste quarto escuro chorando

Milady, nosso para sempre nunca deveria chegar
E mesmo se com as lágrimas acabar...
Jamais deixarei de te amar.


Anderson Marques Mileib

alguém ainda lê meu blog? rs

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Eu sou um poço
De desejos e sutilezas
Sonhos exacerbados e grandezas
Eu sou a arte
A demasiada frustração
A arte que nega toda criação
Sou o filho do desejo
Uma sutil perdição
Sou o algoz da sorte
A cria da paixão



Anderson Marques Mileib

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Insípida

Vejo-me cansado desta realidade insípida
Mascarada por blasfêmias e mentiras...
Quero ver na realidade a verdade despida
Cansei-me de tal mediocridade tardia.

Este sol já não esquenta mais o meu corpo,
O vento frio sopra-me a face todos os dias,
Respiro ar impregnado de um mundo morto
E as pessoas parecem cada vez mais vazias.

Agora entendo que tudo mais está partido.
As pessoas, as ruas até os sentimentos no chão
E tudo que existe dentro de mim está ferido.
Tudo está estático agora, exceto meu coração.


Anderson Marques Mileib

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Terceiro Ato

Fecham-se as cortinas
Os aplausos cessaram
Vão-se as concubinas
As vozes se calaram.

E o silêncio agora reinou
Para onde ir?
Se ninguém mais restou.
Qual caminho seguir?

Onde está o público?
Onde estão os atores?
Tornar-se-iam rústicos...
Envaidecidos pelas dores.

Talvez ainda exista
Mesmo que rompida,
uma esperança
Com os olhos de criança.

Queria viver eternamente?
É tempo demais para não amar
Não, fica contente.
Pois o show deve continuar!


Anderson Marques Mileib

sábado, 14 de novembro de 2009

No Escuro

No escuro eles choram
Envoltos no desprezo
E no silêncio quebrado
Pelo soluço do pranto

No escuro eles falam
Suas bocas se movem
Porém não há som
E o ar continua parado

No escuro eles rezam
Praguejam blasfêmias
Fecham-se para a realidade
Permanecem envoltos
Em total falsidade

Anderson Marques Mileib

domingo, 1 de novembro de 2009

platonismo extasiado

Preciso de uma dose de paixão platônica
Parar de viver a vida meramente atônica
E mesmo “é ela...é ela...é ela” poder dizer
Para até sem amar, ter alguém a escrever

Para nas noites voluptuosas me deleitar
E de amor cego por vezes até chorar!
Ah, preciso de um platonismo no semblante
Não haveria romantismo assim semelhante

Ah, nem mesmo no céu haveria lugar assim
Deleitar-me-ia com seus olhos diariamente
E assim dormiria acordado constantemente

Ah, eu viveria assim no mundo dos sonhos
Meu mundo, constantemente idealizado
Mundo relutante, imaginário, extasiado


Anderson Marques Mileib

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um conto desta vez

O Som do Silêncio


“De repente não parece ser mais tão ruim assim...” Pensava o jovem enquanto estava sentado em um banco de uma praça qualquer, acompanhando os movimentos de uma noite de outono com a fumaça de seu cigarro, quase uma sincronia perfeita. “Afinal de contas, o que é a morte? A morte é um vazio total, é isto e nada mais. Não existe céu nem inferno, existe a vida e depois dela o que vem é um vazio, não se ouve mais nada, não se vê mais nada, não sente mais nada... Os sentimentos deixam de existir” Esta frase se repetia em seus pensamentos, batiam em sua cabeça como um martelo.
“Como será não sentir mais nada?” Pensava ele enquanto apagava o cigarro no banco e se levantava. Não era uma noite fria, mas ventava muito, o bastante para se agasalhar e andar com as mãos nos bolsos. E com passos displicentes ele continuava com seu pensamento. “O que sentimos quando não sentimos nada? Não consigo imaginar um vazio total, mas talvez... Tenho esta lembrança, a primeira de todas. Antes de tudo era como um vazio, como se nada mesmo existisse, daí eu simplesmente acordei, quanto tempo faz? Talvez uns vinte anos ou mais, desde aquele dia que eu acordei e disse para mim mesmo e para todos que foi o dia em que eu nasci, antes de tal dia não existia nada e de repente tudo passou, estranhamente parece tudo ter passado rápido demais, os amigos, a escola, os aniversários, são todas lembranças opacas e vagas agora, como se fosse um filme que eu tivesse visto muito tempo atrás. Será que é isto mesmo? É... não parece mais ser uma idéia tão ruim agora.”
Enquanto caminhava sem rumo, o jovem se ocupava com seus pensamentos, até chegar há uma rua com algumas crianças brincando e, debaixo de uma árvore, havia um casal, adolescentes talvez, conversando alegremente. De repente ele parou, seu coração bateu mais rápido, suas mãos começaram a suar e suas pernas ficaram trêmulas, mesmo sabendo que não conhecia o casal, neles ele havia projetado sua agonia, a agonia de ser acusado injustamente, o que poderia fazê-lo perder a única pessoa em sua vida que dava um real significado a palavra amor. E ele continuava seus pensamentos...
“Há quatro dias nesta mesma hora estávamos sentados, conversando alegremente como aquele casal, por ironia conversando sobre o auto-extermínio, e como isto seria ridículo e improvável. Há exatos quatro dias eu era a pessoa mais feliz do mundo. Há dois dias não nos vimos por causa de imprevistos, iriamos sair de novo e reafirmar que era a pessoa mais feliz do mundo. Há quatro horas a idéia de auto-extermínio me veio na cabeça. Há três dias eu me declarava a ela e dizia não desejar outra mulher neste mundo. Há um dia eu percebi que havia algo muito estranho nela. Há quatro dias eu era a pessoa mais feliz do mundo. Há quatro horas ela gritava comigo ao telefone. Há quatro minutos eu começo a pensar que a idéia de auto-extermínio não seria tão ruim.”
“Como o tempo pode ser tão relativo e imprevisível? Como as coisas mudam desta forma? Agora eu estou pagando por um crime que sequer cometi e por isto posso perder a pessoa que mais amo neste mundo depois de minha família, eu posso perder a pessoa que será minha família. Sei muito bem como é viver sem ela, sei bem pois já passei por isto antes. É, aquele vazio agora, aquele que senti um dia antes de dormir quanto pensei sobre a morte, onde estremeci cada músculo de meu corpo e quase caí em prantos agonizantes, de repente não é mais tão ruim assim.”
“Estranho ele pensava, como assim estranho? Não estava estranho, nada de anormal acontecera, somente os mesmos problemas, as mesmas merdas de sempre.” E continuava caminhando, cada segundo parecia uma hora, o tempo não passava, era como se tivesse visto todo o mundo em uma caminhada. E todas aquelas pessoas em todos os cantos, todo aquele barulho e tantos gritos. Tudo que ele mais queria era sumir, desaparecer, não ver mais nenhuma pessoa, não ouvir mais nenhum som ou nenhuma voz, simplesmente ficar em paz.
“Tirar a própria vida, ele pensava, já senti tanta dor, deveria sentir mais?” E durante alguns minutos de sua caminhada, tudo que ele conseguia pensar era em uma velha música “Olá escuridão, minha velha amiga, eu vim para conversar contigo novamente. Por causa de uma visão que se aproxima suavemente, deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo, e a visão que foi plantada em meu cérebro ainda permanece entre o som do silêncio” E o contagiante som não saia de sua cabeça, nunca ouvira tal música com sua amada, sequer havia comentado com ela sobre a música, porém ele a sabia, letra por letra, acorde por acorde.
“É uma música linda, seria meu silêncio absoluto, meu vazio, ele pensava, pelo menos é uma boa trilha sonora.” Olhou para seu relógio, quase nove horas. “Onde esta caminhada me levará? Preciso conversar com ela, não posso perde-lá, não posso. Eu descobri a verdadeira liberdade, descobri que a liberdade é viver a minha própria escolha, descobri que sou livre. Não conseguirei viver sem ela, não posso.” E em passos displicentes o jovem chega a casa de sua amada. Ele a chama, ela atende. Ela tem olhos raivosos, ele tem olhos tristes, ela está impaciente, ele cansado, ela não acredita nele, ele nunca havia pensado em magoa-lá. Ela o ama, e ele a ama.
-Olá – Ele disse
-Oi – Ela respondeu
-Sei que você não quer me ver e eu...
-É, eu não quero – Ela o interrompeu.
-Tente entender, eu não fiz nada, não aconteceu nada, você não pode me julgar assim por um pressentimento...
-Eu já fiz minha escolha – Ela o interrompeu novamente – Eu não acredito em você.
Neste momento seus olhos encheram-se de lágrimas, ele tentou não chorar mas não adiantou, pareceu ridiculamente estúpido. Depois de ter passado por tanto, depois de tanto se agonizar, depois de tanto sofrer e de tanto amar. Ele levantou a cabeça, e a viu a rua movimentada, carros, motos, ônibus e caminhões, eles não param de passar, e tudo que ele queria era paz.
-Não há outro jeito então, eu não...
-Não, não há outro jeito – Ela o interrompe pela última vez.
-Então é assim, depois de tanto lutar eu perdi. Perdi por algo que não fiz, quanta ironia, Sr. Destino.
Ela ia dizer algo quando ele virou as costas, a rua continuava movimentada. -Se não posso viver mais com você, não posso mais viver. - Disse ele com o rosto virado para ela. Ele novamente deu-lhe as costas, uma última lágrima escorreu sua face, uma gota caiu no vidro do ônibus, um segundo levou para que ele se jogasse na sua frente, um milésimo levou para o motorista pisar no freio, o ônibus levou um segundo para parar depois que um jovem se jogou em sua frente, e um grito foi tudo mais que ele ouviu. Em um segundo, uma eternidade se passou em seus pensamentos, ele via apenas sua amada, e agora ele repetia para si mesmo: “Olá escuridão, minha velha amiga, eu vim para conversar contigo novamente. Por causa de uma visão que se aproxima suavemente, deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo, e a visão que foi plantada em meu cérebro ainda permanece entre o som do silêncio” Seu silêncio havia finalmente chegado. E sua amada agora estava ajoelhada, com as mãos no rosto, não acreditando no que acontecera. E ela chorava.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Inferno Distante

Caminhando pelo limbo esquecido
Seu semblante pragueja pelos ventos
“Como pude ser um tolo distraído...

Dos dias com o coração aquecido
Sonhando tê-la em minha frente
Quando pela vergonha fui atingido

Eu corri como um guerreiro fugindo”
Sente que a terra treme em seus pés
Aos poucos a forma vai se esculpindo

“Você que escreve me belos versos
Reis e rainhas narram-lhe sentimentos
para que por você, sejam expressos

Cada sentimento lhe é estendido
E agora com uma bravura irônica
Foi exatamente por eles que impedido”

Era o destino falando-lhe às costas
E mesmo incapaz de se mover-se
Ele já tem preparada a sua resposta

“É você destino que assim me encosta
Mesmo que já tenha escrito a história
É contra você destino, minha aposta

Mesmo que me impeça de lhe falar
Mesmo que não possa vê-la mais
Jamais me impedirá-me de amar

O silêncio em mim não ira mais plantar
Digo agora, de uma vez por todas
Digo a ti destino, eu irei lhe mudar

Enfrentando demônios, custe o que custar”

Anderson Marques Mileib

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

o homem do buraco

O que faz o homem no buraco?
Teria caído ou teria pulado?
Ou será que ele foi jogado?

Ele se move, ouve! Ele grita algo!
O que grita o homem perdido?
Será um recado, último pedido?

O que fez este homem
Para ser assim abandonado
E as outras pessoas somem.

Estão todos caindo neste abismo?
Todos caindo, quanto cismo!
Talvez dentro seja eu, não eles.

Anderson Marques Mileib

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A Minha Fé

Satirizo minha desgraça do dia a dia
e o faço com muito gosto e vontade
talvez uma pequena dose de ironia.
Nunca me esquecendo: Oh! Bondade.

O seu escarnio já me foi mastigado
Tamanha ironia agora é nauseante
Antes eu tivesse apenas parado
Mas tornei-me um tolo falante!

Arranco as entranhas do estômago
O que fazer se não há de ser feito?
Você não vê e ninguém bota defeito

Mais ainda existe, lá no âmago
Passa as noites puxando meu pé
Onde foi que guardei minha fé?


Anderson Marques Mileib

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O que seria?

Hoje percebi... Será que eu sou tão indiferente assim? Foi mais uma prova de que eu realmente sou tão calmo ou até mais, quanto as pessoas dizem, ou então extremamente anti-social, talvez um pouco dos dois. Pois bem, lá estava eu todo feliz indo para a faculdade, com o corpo no ônibus e a mente nem sei onde, quando me vi obrigado a sair deste mundo, um barulho, buzina, freios bruscos, “aaaiiii” (este grito que não sai de minha cabeça), e de repente as pessoas caindo, um silêncio de alguns instantes que parecia uma hora e todo mundo se desesperando, levantando, comentando, resmungando, xingando e tudo mais no gerúndio. E eu me perguntei se teria sido diferente minha reação, quando vi aquelas pessoas caindo, parecendo em câmera lenta, com tanta indiferença, se o ônibus estivesse correndo mais, se os vidros tivessem estourado e as pessoas tivessem se machucado de verdade, será que no fundo desejei isso? É, meu ônibus bateu. Que trágico... Parecia que todo mundo pulou na batida menos eu, fiquei lá quieto, minha respiração não mudou, minhas mãos não tremeram nem suaram, só achei ruim, chegaria atrasado na faculdade. Que coisa, todo mundo nervoso, tenso, fumando, ansioso e parecia que só eu fiquei calmo, afinal de contas que calma é essa? Eu só me sentei e fiquei lendo meu livro, enquanto as pessoas foram levadas para o pronto-socorro, xingavam e se indignavam, e eu sentadinho, lendo meu livro. Olha só, poderia ter sido jogado do banco, batido a cabeça no vidro da janela, quebrado o pescoço, se eu tivesse em pé poderia cair, sei lá mais o que, será que isso é normal? “Perdi um horário” eu pensei “agora não vou perder minha passagem, outra eu não pago.” E enquanto isso a senhora ia para o pronto-socorro com o braço machucado, junto com sei la mais quem se machucou, de fato acho que não me importei, só fiquei lá, lendo meu livro, nem pensei que poderia ter machucado, talvez tenha até me machucado e não vi, só fiquei lá, com meu livro...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Impasse

Pior do que um coração partido é um ego destruído. Acabei de perceber. Tamanho é o sentimento do ego disfarçado de emoção, seria mesmo emoção? É um impasse, uma tremenda barreira, onde eu podia fazer de tudo com qualquer um, de repente me vi impedido, eu mesmo me impedi, bati a cara contra essa parede. Tão forte que até machucou. E só hoje fui perceber. Só hoje? Poxa, como fui tolo, cego... A verdade estava o tempo todo estampada em meu semblante. “Olha pro espelho, quem é que você vê afinal de contas?” Não era o coração, não era o amor, era o ego, sempre foi o tempo todo... Era minha imagem refletida, minha impossibilidade, minha barreira auto-gerada, por isto então me machucava tanto, era o meu limite, por isso é como se fosse uma farpa dentro de minha unha, inflamando, cada vez mais fundo. O que foi isso? Foi a chuva? O cigarro, as pessoas, essa sensação que tenho sentido de que eu de repente fui jogado em um mundo estranho? Por que será que não ficou tão óbvio assim logo no começo? E de repente... o vômito, essa ânsia se expurga de meu corpo, gosto ruim, não sai da boca, ou seria da cabeça? Essa sensação estranha na barriga, indigestão, é o ego. É, isto é amor ou paixão, vai saber... Eu amei com o ego ao invés do coração, e pior que um coração partido é um ego destruído...

Mosca

Diário do Dr. Fleubermann Paciente nº 003764 Curioso e peculiar o caso deste paciente em específico. Ainda me lembro bem da primeir...