quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Bem no meio de lugar nenhum.



Era noite e eu vagava. Não tinha sequer lembrança de como havia chegado ali. As ruas desertas a medida que cruzava, meu caminho era incerto e minha mente estava tortuosa. Fazia tanto calor, cada passo tornava-me mais pesado, minhas pernas doíam, eu suava e o frio não era sequer uma vaga reminiscência. Foi quando em meio aos devaneios fui desperto por um som, eram passos ecoando no vazio da escuridão. Foi quando a vi.
Nossos olhares se cruzaram e o mundo parou. Ofegante, o coração disparado, eu parei, olhei para trás. Ela me encarava. Quem é você dama da noite, a quem me desvia de meu torto caminho? Mesmo no calor, com seu passo adiante eu gelei. Quem é você, que tira minha paz do desconforto e me desperta? Mais um passo, eu caminho junto.
Não há mais ninguém na rua, apenas sons distantes da noite urbana, um carro, uma sirene, um trem... Quem é esta que me olha nos olhos, não a conheço, nunca nos vimos, ainda assim não consigo tirá-la de minha mente. Mais um passo, resigno de todo meu percurso destinado ao inferno ou seja lá onde estaria indo. Seria ela um anjo me livrando do purgatório? Ou um demônio me condenando pelas minhas luxúrias?
Mais um passo, estamos cara a cara. Vejo agora seu semblante, os olhos penetrantes querem me engolir começando pelo olhar. Sinto uma leve brisa, um alívio que para me lembrar do calor. Mas agora piora, ela sorri. Em todo sorriso sinto uma pontada de conforto em minha alma, vejo suas mãos se movimentando, as minhas vão instintivamente ao encontro.
Mas espere, ela foge? Onde vai, dama da noite? Por que me cativa e depois corres de mim? Não sei seu nome, sequer ouvi sua voz, tudo que tive foi seu sorriso, devo contentar-me com isso? Eu caminho, fito-a, sigo-a a medida que se vira com seu olhar convidativo, e todas as minhas incertezas se vão quando ela me chama com os dedos.
Paro próximo a ela, de costas vejo seu cabelo, quase consigo sentir seu cheiro. Ela se vira, tem o mesmo olhar, o mesmo sorriso. Nossas mãos vão se encontrar novamente. Eu a toco, mas não consigo, não a tenho. Não está ali. Será um fantasma? Uma alma penada em busca de companhia para a eterna agonia da solidão. Estendo minha mão, que meu caminho seja seus lábios, dama da noite. Abraço-a, vejo seu sorriso e lhe beijo. E eu desperto. Em minha cama vazia, no quarto semi-iluminado pela lua, na noite quente. Ainda ouço os carros, a sirene e o trem, mas não saio do lugar. Tudo que tenho agora é o resquício de um sorriso, e assim termino a noite, contentando-me com migalhas de minha própria ilusão.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Desafeto



Este desafeto
Que me afeta
E desatina
A saudade
Que se objeta
Perdida nas carícias
De lembranças inerentes
E palavras coerentes
Que me torna objeto
De meu próprio amor
E rancor
E me afeta
E desafeta

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Devaneios de uma quarta vazia



Hoje resolvi escrever... mas sobre o que?
Deveria abstrair, pensar, me livrar e quem sabe até coagir (os dedos no teclado, talvez).
Pois bem, sobre o que falarei se não tem nada, apenas um vazio...
Sim, falarei sobre o vazio.
Mas que vazio, o que é o vazio? Um vazio de um quarto, de uma casa, de uma vida, da humanidade, dos sentimentos... apenas o vazio. E a importância que ele tem, pelo menos em minha opinião.
O vazio nos move, me move, pelo menos assim penso. Aquela sensação de não existir nada, e que talvez, possa ser algo, algo isto que me faz desejar, que me faz querer ir atrás, que me dá forças para lutar, para entender, para conhecer, para aprender e para, principalmente, ser. O vazio não escorre de minhas mãos como um argumento poético, ele é o que ele é. Sempre esteve aqui, sempre esteve aí e sempre estará.
É o vazio que me diz de algo que não está bom, ou que já esteve mas encontra-se exaurido, é o vazio que me faz querer algo novo, algo para preencher, algo a degustar, algo a sentir...
Aquela sensação de vazio, as vezes, de sentir-se até incompetente, inútil, de querer fazer algo simplesmente para sentir no fim do dia que você fez algo produtivo e não ter aquela velha sensação de vazio.
Isso pode inspirar, pode também transpirar, tanto nas palavras quanto no corpo afinal. Um vazio é algo que faz um compositor ir atrás de sua obra prima, seu Magnum Opus (grande obra em latim, diga-se de passagem.), ou que faz um poeta ir atrás de seu soneto perfeito, a perfeição das palavras, escrever não aquilo que sente, mas aquilo que anseia sentir, aquilo que com todo afinco vai lutar e buscar e quiçá, escrever seu próprio futuro. Ah... o vazio. Aquela sensação de absolutamente nada. Mas que me faz querer algo mais. E em você, o que faz um vazio?

Se você leu minhas abstrações até aqui, agradeço muito mesmo. Tentarei e me esforçarei ao máximo, para toda quarta-feira escrever um pouco sobre os mais variados temas, com minhas opiniões, meus questionamentos e é claro, sentimentos. Ah, aceito sugestões também. Gostaria muito de dialogar com quem me lê.
Uma ótima noite e até sexta.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

De volta...

Olá meus leitores.
Ainda tenho leitores por aqui?
Já faz mais de 2 anos desde a última vez que postei algo aqui... 2 malditos anos.
Mas isso não quer dizer que eu parei. Não, de forma alguma.
Agora sim posso me chamar de escritor, já que tenho meu primeiro livro publicado e o primeiro de muitos, espero.
Nunca deixei de escrever, mas me dediquei mais a minha página no facebook, e agora no instagram. Mas resolvi voltar até aqui onde tudo começou.
Quem quiser siga-me a vontade
facebook.com/meuleitonumquartovazio
facebook.com/anderson.mileib
@andersonmileib
Tentarei postar aqui pelo toda quarta e toda sexta (ou talvez sábado).
Então amanhã mesmo já tem post novo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Tentação Distante


Quero a bondade de seu olhar
E toda a malícia de seu sorriso
Enquanto sinto seu cheiro no ar
Deitado no leito d’um cortiço

Eu quero cada fibra de seu corpo
Matar o que nunca existiu outrora
Fazer-me o sangue ficar louco
Matar a saudade que nunca vai embora

Quero seus beijos fantasmas
Seu toque cálido em mim
Recitar palavras tolas e pasmas
E acender a chama assim

De todos os meus erros
Você foi meu maior acerto

Nas suas curvas tenho a perdição
Não posso assim viver sem saber
Mesmo que para outra lição 
Não posso morrer sem ter de você

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Velho

Caminho sozinho pelas ruas
Não vejo o tempo passar
Carrego a vida nas mãos nuas
Vendo sol e chuva a brilhar

Rostos desconhecidos me evitam
Reis desprovidos de faces
E todas as terras que inventam
É a sublimação que nasce

Seus olhos não olham os meus
Se os filhos tem medo, não me importo
Um dia os estigmas serão seus
Mas a muito já estarei deporto

Não temo a morte certa
Abandonado e esquecido
E no fundo a pergunta aperta
Quem é o velho esquisito?

Pai, filho ou avô de alguém
Alguém quem fez por merecer
Nas ruas apenas um ninguém
Um velho a perecer

Mas quando visto hei de agradecer
Toca-lhe os ombros em prantos
-Quem jaz sem vida há de me conhecer-




Página quase (toda) abandonada.
Se quiser continuar lendo meus textos ou entrar em contato comigo acesse a página no facebook
https://www.facebook.com/meuleitonumquartovazio

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Conheça também minha página no facebook

O blog anda meio parado, então convido a todos a conhecer minha página no facebook.

https://www.facebook.com/meuleitonumquartovazio

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Chuva

O céu tremeu diante de meus pés
Enquanto delirava admirando seu olhar
Começou no mais memorável revés
Mais do que nunca agora posso amar

Mesmo com o céu a cair em minha cabeça
E meus pés molhados pisando no chão
Toda a chuva que caí do céu é gota
Comparada ao júbilo de meu coração

E nada irá impedir que o futuro aconteça
Pela primeira vez pude sentir seu perfume
Olhar de perto em seus olhos antes que eu pereça
E mesmo que pouco, de seu corpo o ardume

E em meio a palavras e sorrisos sinceros
Mesmo que por um instante o mundo parou
Nas águas da chuva, na simetria do singelo
Foi no mesmo momento em que tudo retornou

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Alma Vendida II

Onde está? Onde está o grito de outrora?
Em alvoradas mesquinhas perdidas
São as lágrimas do anjo d’aurora
De dores passadas, mas não esquecidas.

E eu? Sou o espírito da vingança.
De meros encontros ao acaso
Um corpo, um’alma morta que dança,
De todas as palavras eu sou o descaso

E o sangue roto a apalpar o peito
São palavras escarnecidas e sem inspiração,
De um coração que agora jaz sem leito
Meras palavras ao caso e sem razão...

E assim, com palavras vazias e sem sentido...
Sem vontade o mundo fora construído.
E como todo o mundo, agora vai despido...
-Tarde demais para meu tempo, já fui vendido. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Alma Vendida

Eu sou o demônio da luxúria
E só vivo em desejos vadios
Eu sou puro ódio ira e fúria
Pois vivo de prazeres vazios.

E da vida canções e baladas
Sua cabeleira na noite solta
E gritos e vozes abobadas...
À paz nesta vida ou n’outra!

De todas as bocas que beijei
Das mulheres que já amei...
E todos os seios que toquei
Inebriado na calada me achei.

Onde a pureza outrora jazia
Em meio a túmulos teorias e teses.
E ao anjo eu olhava e dizia:
-Minh’alma? Já vendi três vezes!

Duas por amor e uma por ganância.
Cega e tola é essa fria lembrança.

Pois o preço foi baixo em demasia
Ou seria apenas mera fantasia?

E esse aperto que aperta o peito
Seria essa a solidez da solidão?
Moribundo jazendo ao meu leito
Não tenho pedras no lugar do coração. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Com Todo Amor do Mundo

Todos os dias são sempre o mesmo
As mesmas caras, tudo igual,
As mesmas músicas, tudo coeso.
Até mesmo essa comida boçal.

Passa dia, mês, ano, a vida inteira...
O que realmente fez para se orgulhar?
A mesma briga se tornando rotineira.
Quando é que isso tudo vai parar?

Não são demônios, sequer fantasmas.
São vermes vomitando de sua boca
E da merda no rádio e suas asmas
Exorcizando espíritos das louças.

O que você fez realmente para eu me orgulhar?
Além deste eterno tédio e a vontade de me matar...

Até a comida que venho comendo
Existem gostos além do seu umbigo
Sua maldita visão vem me corroendo
Não se deve existir o comigo e contigo

E todas essas brigas que nunca param?
Uma atrás da outra, hora após hora.
É este seu orgulho que nunca vaiam?
Pois chega, agora eu irei embora.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Linhas Tortas

A fumaça do cigarro
Divaga a velha fama
Dos moldes feitos a barro
Ascende a velha flama

A mariposa atraída à chama
A donzela sempre a caminhar
E minha boca a ti chama
Mas sempre permanece a escapar

Como correr acorrentado?
Perto ou longe não importa
Não é mais o meu lado

A você resta como se comporta
Nas fotos de olhar pardo
E a mim resta uma linha torta

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Insônia

É noite e não consigo agir
Neste ar cada vez mais abafado
Já não consigo mais dormir
Só pensar no mundo ao meu lado

Maldita insônia que me faz pensar
E todo mundo parece desabar
Quanto tempo falta para acordar?

Apago a luz e fecho os olhos
Estou correndo sem destino
Indo para qualquer lugar
Vejo luzes e sons diminuindo
Mas não consigo te alcançar

Maldita seja esta insônia
Que não me deixa acordar

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Perdoe-me

Perdoe-me
Por não tê-la seguido
Quando o mundo desabava
E carrega-la nas costas
Perdoe-me por não ter conseguido
Por lavar as mãos e deixar
Por ver quando poderia ter corrido
Pelas palavras rudes a pronunciar
Perdoe-me peço com afinco
Por simplesmente ter deixado
Abandonado
A morte do amor com horror
Ou talvez com louvor
Por somente estar ao seu lado
Mas antes de tudo peço-lhe
Não me perdoe
Por tê-la matado

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Tudo e Nada

Hoje é o dia
Todos os dias
Hoje não é dia,
Nunca é.

Hoje e nunca
Amanha talvez
Tudo se repita
E morre outra vez

Hoje é o dia
Você será minha
Sempre foi
Sempre e nunca

E hoje mais uma vez
Para que amanhã quem sabe
Exista apenas um talvez...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Senhor da Loucura

Em um tempo longe do tempo
Outrora nas terras mais distantes
Trajando manto ou talvez mempo
Via-se o Senhor e seus semblantes

A passos largos sempre caminhava
E a terra chorava diante de seu pé
O nome por todo canto se cantava
A fazer homens perderem sua fé

Seu sangue declarou a guerra santa
Santos pecadores guerreiros a se matar
O rouco timbre de sua voz que canta
Derrama seu sangue faz a terra gritar

E sua loucura tornava os ecos distantes
Sua voz, melodia e caprichos errantes

E ria o Senhor da Loucura em sua deixa
-e sua voz já não sai mais de sua cabeça-

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Traio e Distraio

Eu me traio e me distraio
Com silêncios relevantes
E nas palavras ociosas
Ditas a meros semblantes

Eu me traio quando calo
E escrevo o que não falo
Nos pensamentos fica o calo
A palavra não é o falo

E quando caio me distraio
Pro inferno com esse raio
Ou caio porque distraio?
Que seja o arco ou o raio

E sem bordões relevantes
Apenas me traio e distraio

Mosca

Diário do Dr. Fleubermann Paciente nº 003764 Curioso e peculiar o caso deste paciente em específico. Ainda me lembro bem da primeir...